-Thiago Santos

Misturando synthpop com house, “Tem Conserto” é uma viagem pela vida da antiga Clarice, mas narrada pela nova Clarice, que misturou seu passado obscuro com a música eletrônica mais chique que há. 

Quando mencionavam a Clarice Falcão, óbvio que a primeira coisa que vinha à cabeça era a Summer, do horrendo filme “500 Dias Com Ela”: Camisa abotoada até o primeiro botão, suéter xadrez, saia, meião branco com uma faixa preta e um Oxford preto nos pés, provavelmente ouvindo alguma banda de “indie suave”, tipo The Smiths ou, no máximo, um The Cure (porque é ÓBVIO que a banda não pode ter sido criada há menos de 20 anos).  Agora, quando mencionam a cantora carioca, não tenho mais uma personagem de filme brega para citar. Me vem muito neon, luz colorida piscante e caixas de som altíssimas, com o grave batendo forte. 

Foto: Pedro Pinho

Com ajuda de Lucas de Paiva, do selo de música eletrônica 40% Foda/Maneiríssimo, Clarice ajustou sua música para ser exatamente o que ela queria que fosse – Dançante, triste e um divisor de águas, que levou muito da cultura da música eletrônica para os que antes eram acostumados apenas com as 6 cordas. 

Clarice deu um giro de 180 graus e deixou de fazer seu papel de fofinha, se transformando na ousada que sempre teve dentro de si. Deixou de se apaixonar pelo hippie do sarau e agora lançou seu olhar direto naquele DJ gatinho que sempre toca de manhã para que todos vejam que ele é bonito (para não prestarem atenção em seus amigos, destruídos pela quantidade excessiva de substâncias ingeridas naquelas várias horas de festa). 

São pelo menos 2 Clarices: A de “Monomania”, que gostava da ideia de ter um amor e odiava a ideia de perdê-lo, do violão acústico, que deu cria a artistas famosas e inúmeras cover-girls no YouTube – E a Clarice de “Tem Conserto”, que mergulha fundo em seus problemas do passado e do presente, abrindo seu coração nas letras e fazendo a música com a qual mais se identifica atualmente, a música eletrônica, que contrasta com o teor melancólico de seus pensamentos. 

Tinha muita gente que não gostava da antiga Clarice. Eu mesmo não era fã. Não que tivesse algo de errado com ela, só não faz parte do meu gosto musical. Já essa nova é em torno de 300% eu. A tristeza com as batidas contagiantes forma um retrato amadurecido de uma mulher que já não se contentava mais só com histórias de amor, e resolveu abrir os aspectos mais íntimos de sua vida como problemas psicológicos e depressão de uma forma sensível que funciona em vários níveis – Tanto para quem quer saber mais sobre o âmago de Falcão quanto para quem quer só ouvir uma música dançante na balada. 

Clarice Falcão realmente foi da água para o vinho: Água é bom e essencial para a vida, mas é insípida, inodora e incolor. Já o vinho tem sabor, densidade, é desafiador e, ao envelhecer, fica cada vez melhor.